"Não basta dizer que se é consciente de algo; é-se, também, consciente de algo como sendo algo"



domingo, 26 de dezembro de 2010

..:: Deus e o diabo em mim ::..



Sou a avenida cheia
De gente rápida e feia.

Sou um sol brilhante
De um dia incandescente
Sou luz, calor calante.

Sou toda gente em mim
Santo e demônio em mim
Céu e inferno em mim.

Trechos de "Santo e Demônio" - Fagner e Ricardo Torres.

Sou aquilo que em mim enxergas, mas não me peça pra ser só isso!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

..:: Mais do que o instante, quero seu fluxo ::..



O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. 

Mais que um instante, quero seu fluxo. Nova era, esta minha, e ela me anuncia para já. Tenho coragem? Por enquanto estou tendo. Venho do longe - de uma pesada ancestralidade. Eu, que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Mas quero também a inconsequência. Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom, mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo.

Estou à salvo? Enxugo a testa molhada. Ergo-me devagar, tento dar os primeiros passos de uma convalescença fraca. Estou conseguindo me equilibrar.


Não, isto tudo não acontece em fatos reais, mas sim no domínio de - de uma arte? Sim, de um artifício por meio do qual surge uma realidade delicadíssima que passa a existir em mim: a transfiguração me aconteceu.

Trecho e adaptação de "Água viva" - Clarice Lispector.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

..:: Passou, mas não passará ::..



E então passou, como as águas que transbordam em alegria e nem tanto em calmaria, mas agora tenho paz? Jamais. Agora é que a correnteza vem forte, para arrebatar aquilo que se chama de sonho e de perspectiva, carregando em si a possibilidade dos significados daquilo que somos. Que seja em meio a caminhos intranquilos, tudo bem, mas me deixa carregar esse peso, águas insanas, só me leve para bem perto daquilo que mais almejo: ser do outro e fazer para o outro. Assim, ao passar a próxima chuva, já não mais tenha pressa, nem correnteza, só certezas, ou não! 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

..:: Negar-se ::..



Engraçado, vivemos em uma constante trincheira entre a eficiência dos "humanos" e a razão dos "exatos", nessa discórdia em que se prega a nossa inutilidade perante a ciência. Diante disso, o que eu quero observar é que nós devemos ocupar, sim, os espaços, incomodar e inclusive desagradar, porque não pedimos para nascer humanos e não carregaremos para sempre o estigma de padecer em meio às formas e técnicas, sem nos fazer e nos perceber humanos, pois o homem só se faz homem quando age e se reconhece como tal. Se mantemos em nossas mentes e em nosso cotidiano essa repulsão ao outro, à obra do outro, à arte do outro, estamos negando a nossa própria condição de SER HUMANO.

domingo, 21 de novembro de 2010

..:: Dia poético, pra não dizer agitado ::..



Quem esteve aqui
viu barquinho de gazeta
ancorar no mistério

Notas musicais
dentre bolas de sabão
que de nossas serenatas vieram

Flores que ofertamos
e que nunca morrerão
em vasos e jarros de bronzeiam

Os anjos, de onde vem?
sua vida, bem vinda, na trilha
os livros não são sinceros

Quem tem Deus como império
no mundo, não está sozinho
ouvindo sininhos

"Magamalabares", de Carlinhos Brown

Dia de movimento, de correr, brincar e congregar. Que assim sejam os 365 dias de todos os anos de minha existência.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

..:: O que ser ela? ::..



Olha, será que ela é moça? 
Será que ela é triste? 
Será que é o contrário? 
Será que é pintura?
Se ela dança no sétimo céu 
E se ela só decora o seu papel 
E se eu pudesse entrar na sua vida?

Olha, será que é de louça?
Será que é de éter?
Será que é loucura? 
Será que é cenário? 
Se ela mora num arranha-céu 
E se as paredes são feitas de giz 
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida?

Olha, será que é uma estrela? 
Será que é mentira? 
Será que é comédia?
Será que é divina? 
Se ela um dia despencar do céu 
E se os pagantes exigirem biz
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida?

Trechos de "Beatriz" - Edu Lobo e Chico Buarque

Só porque, a princípio, eras apenas uma miragem, eu a contemplava e queria fazer parte de sua vida. Hoje, já não tenho dúvidas da sua concretude, pois é imensamente presente em mim.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

..:: Guardar ::..



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em confre, perde-se a coisa de vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la
iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, é fazer vigília por ela,
velar por ela, estar acordado por ela.


[...]


Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara um poema:
Para guardá-lo.

De Antonio Cícero

terça-feira, 16 de novembro de 2010

..:: Revisitando a minha condição ::..



Quando contemplo a pequena duração da minha vida absorvida na eternidade precedente e seguinte, o pequeno espaço que preencho e mesmo que vejo, abismado na infinita imensidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, apavoro-me e espanto-me por me ver aqui e não lá, pois não existe razão por que aqui e não lá, por que agora e não então. Quem me colocou aqui? Pela ordem e pela condução de quem este lugar e este tempo foi destinado a mim?

Pascal

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

..:: Saudade II ::..



Hoje não senti, mas passei a contemplar o teu cheiro por outras vias, já não mais expresso em dor e angústia. Sim, devo confessar que não foi fácil, não exercitei a arte mais profunda de reviver meus temores de maneira sutil, isso seria demais pra mim, encontrar sutileza em tudo aquilo que deve ser lapidado, que é bruto, ríspido, e resiste em mim! É uma angústia que se renova, mas angustiar-se nem sempre é padecer.

Perfeita sintonia senti, melhor ainda é perceber que somos cuidados, que temos cuidados, que zelam por nós! Saber que existem pessoas que nos arrancam o melhor (e o pior) que temos e tomam pra si não somente a responsabilidade de preservar o que há de belo e desprezar o que se tem de amargo, mas (re) significar o belo e o amargo em mim, para que o belo não me acomodes e o amargo represente o gosto do outro que eu também quero.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

..:: Sobre duas rodas que flutuam ::..



O que nos conduz é a vontade de estarmos juntos, e o caminho permanece apenas abaixo de nós, mas se é para chegar, mais do que sem emissão de gases tóxicos, que seja despejando leveza por aí, que seja olhando as pessoas trancadas em seus carros parados sobre a ponte, que há muita contemplação possível dependendo apenas de um olhar para o lado.

Assim atravessamos os dois estados, e tomara que da mesma maneira consigamos atravessar o tempo, sem a ilusão de que a disposição para pedalar seja a mesma, mas com a persistência em compartilhar, boa música, uma gargalhada qualquer, sensibilidade, e a parte corajosa de nós.

Por Sarah Fonseca

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

..:: Vida/Tempo ::..



Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma.
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
  Avida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
  A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
  A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
  A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo
na verdade faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: 

tempo, se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando.

Viviane Mosé


terça-feira, 28 de setembro de 2010

..:: Só porque ser feliz é pra todos! ::..

 
Parecia um bloco de carnaval, tanto!
Mas que assim o seja, como um bloco.
Já dizia Gonzaguinha: da unidade vai nascer a novidade!
Um novo que é múltiplo, que respeita o sabor do outro.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

..:: Gente humilde ::..

 

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar


São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar.

De Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Garoto


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

..:: Desequilíbrio ::..


"Arde aqui dentro de mim uma pouca vontade, 
com gosto cortante de caco de vidro, desnutrida, exposta à fratura." 

Trecho de "Desequilíbrio", de Fábio Trummer - Banda Eddie.

"Fardas bonitas, condecorações.
Documentam na nossa história,
o seu rastro sujo de sangue e glória..."

Trecho de "Carta aos missionários", de Marcelo Hayenna, Cal e Nilo Nunes.



..:: Piedade ::..



O frio às vezes quer ser quente, quer acalentar, mas a natureza não deixa porque o frio não nasceu pra isso. Não compõe a sua lista de habilidades a proeza de aquecer; ele é gélido, frígido, por hora amargo, no entanto, vive tentando acomodar a sombra daqueles que o sustentam.

Tantos já se foram, quantos instantes já se perderam, mas eu peço piedade, piedade às sombras e aos sustentáculos. Suplico piedade ao mesmo passo que grito: permitam-me exercer a minha frieza, não por egoísmo, mas por vocação.

..:: Desilusões do século passado - Quino ::..



domingo, 22 de agosto de 2010

..:: Inebriai-vos ::..



É preciso estar sempre ébrio. Tudo se resume a isso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que abate vossos ombros e vos verga em direção à terra, é preciso inebriar-vos sem trégua.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas inebriai-vos. 

E se às vezes, sobre os caminhos do palácio, sobre a erva verde de um canal, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a ebriedade já diminuída ou extinta, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de se inebriar! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, inebriai-vos; inebriai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

Texto de Charles Baudelaire. Tradução encontrada no blog "Armadura de vento": http://armaduradevento.blogspot.com/.

domingo, 8 de agosto de 2010

..:: E eis que tudo começa ::..



Renascido e inseguro
Cuspido em novo terreno
Incerto, sem convicção
Essa fraca e instável hora

Primeiro dia,
Começa outra vez
Primeiro passo, 
Não estou nem fazendo mais sentido por enquanto

Eu finjo até eu pseudo-conseguir
Começar do zero outra vez, mas agora "eu" como "eu"
E não como "nós"
Hesitante e agitado
Tímido, sem uma mão
Disfarço-me de bravo com intenções de aço

Pequeno e distante
Olhos molhados
Abertos e cansados
Se Deus está fazendo apostas
Eu rezo que ele queira perder

Traduzido e adaptado de "Not as we" - Alanis Morissette


domingo, 1 de agosto de 2010

..:: Metade ::..




Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro


sexta-feira, 30 de julho de 2010

..:: Sim, assim ::..



Como agradam as coisas simples que me ocorrem!
Como desejar que essa verdade seja contemplada por outros olhos que não os meus?
Coisa simples é coisa que não assusta, não se percebe, tampouco se concebe e nem ao menos ameniza.
Não carrega em si o peso que tem as dores que o vento não leva e que sempre batem à porta.

Como agradam as coisas simples que me ocorrem!
Como apreciar sem exigir que seja grande?
Coisa simples não fragmenta as pedras amontoadas naquele canto a ser esquecido.
O que é simples insiste em me agradar, satisfazer.
Chega assim como o vento, incapaz de arranhar, demarca e ocupa!

Que contradição... mas o que fazer pra que essa verdade encontre outros olhos que não os meus?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

..:: Cansaço de estar cansado ::..



Alguns dias se passaram e aqui estamos. Demora para escrever pelo exercício de produzir; memória que quase parou, mas de pensar não quis parar; reflexões perdidas e encontradas, despedidas do que foi achado e o reencontro com a dúvida que nunca deixou de duvidar: o conflito daqui é sobre o que serei ou sobre o que será?

Será importante este conflito na mesma medida em que são essenciais os seus fins últimos? Ora! Como amadurecer, sem necessariamente crescer?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

..:: Notícias populares II ::..


Nas minhas caminhadas e leituras, tive acesso a um texto que caracteriza de maneira efetiva o que tentei retratar no texto "Notícias populares". Pois bem, abaixo seguem os escritos que foram encontrados originalmente no blog da filósofa Marcia Tiburi. Inicialmente ela faz um comentário sobre o texto e em seguida ele finalmente é apresentado.

"Ceres Almeida é psicóloga e frequenta a oficina de escrita criativa que tenho junto com o Evandro Affonso Ferreira. Ontem, a propósito de um exercício envolvendo o autor Giorgio Manganelli, ela nos trouxe este texto que, a meu ver, é uma visão radiografada do evento da morte de Glauco que perturba a nós todos. Quem curtia a arte de suas tiras e charges ficou mal, quem não sabia que ele era um artista bacaníssimo também ficou triste demais, afinal era um homem de bem tentando melhorar o mundo em que vivia. Eu achei tão lúcido o que a Ceres escreveu; é como se ela tivesse percebido uma espécie de mito que estruturou o acontecimento infeliz de sua morte. Como psicóloga – e uma escritora de talento real – ela percebeu o lugar do assassino e sua dor que, nós mesmos, pessoas-aí, não podemos compreender nem com todo o esforço de nossas interpretações."


Eis o texto da Ceres:

O rapaz vestido com jeans, olho arregalado, arma na mão, precisa fazer anunciação à mãe, que é ele, seu filho, o próprio Jesus, que nasceu grande, barbudo, de Maria distante. Ninguém lhe diz quem é, só que não é quem pensa que é.  Quem é, pouco se sabe, pouco se sabe se faz milagres, se cura gente, se faz defunto levantar. Jesus das Travas e das Trevas busca três magos e estrela guia prá nascer grande na Santa Igreja do Céu de Maria. Proclama em voz alta Eu sou a Mentira, o Descaminho, a Morte, quem me perseguir, morrerá, nascendo se morre para a morte eterna, amém.  

De todos os magos da Santa Igreja, o primeiro lhe chegou como quem quer conversar, o segundo lhe chegou como quem quer brigar, o terceiro foi aquele que com ele compactuou. Fez milagre, meteu bala em dois magos, mostrou seu poder, Maria haveria de saber. Foi perseguido, preso e acusado e está sentado do lado esquerdo de deus pai, Juiz de direito, por quem há de ser julgado entre vivos e mortos. Em seu martírio, Judas-Jesus, o rapaz de jeans, profere solene sua oração. Mãe minha que estás não-sei-onde, beatificado seja seu filho, criador de céus e infernos, olhai por mim, o renegado, agora e na hora do meu julgamento. Aquém.

Segundo relato das testemunhas o rapaz de jeans estava transtornado e delirava. Ele estava armado com pistola automática e faca na mão. Um homem tentou negociar com ele e chegou a ser agredido. De acordo com alguns, este homem não reagiu. No meio da discussão, porém, o filho deste homem chegou ao local. Em seguida, o rapaz de jeans atirou contra pai e filho, mas os motivos ainda não foram esclarecidos. Os dois chegaram a ser atendidos no hospital, mas não resistiram e morreram. O rapaz de jeans sorri atrás das grades, em nome do Pai e Filho mortos, ele a Encarnação do Espírito Santo. Amém.

domingo, 28 de março de 2010

..:: Saudade ::..


Hoje senti o teu cheiro, parece que vivo momentos de outrota em que a tua presença se fazia tão constante pelo cheiro! Um cheiro forte, amargo, que trazia dor e angústia, mas o cheiro que sinto hoje está carregado de uma saudade imensa, saudade que é fruto de um amor velado. Nunca pensei que sensações tão distintas e que, por vezes, se entrelaçam: a angústia e o amor encontrassem, em meio a uma crise do sentir e do lembrar, semelhança tão particular.

terça-feira, 23 de março de 2010

..:: Notícias populares ::..


Nos dois últimos dias fui tomado por algumas questões que me levaram a refletir. Refiro-me, de início, ao caso de um garoto de 12 anos que é acusado de assassinar sua madrasta, grávida de 8 meses. Em outra instância, relato a morte de uma mãe, que foi dilacerada pelo próprio filho em uma de suas crises psicóticas.


Afinal, que relação é possível entre uma situação e outra? A resposta é simples se levamos em consideração o discurso midiático de que ambos, em suas práticas criminosas, figuram agora como homicidas, pois atentaram contra a vida. Mas a discussão não pode ficar no superficial das manchetes de um jornal; as questões que aqui coloco retratam realidades que a princípio parecem dessemelhantes, no entanto trazem consigo o peso de um fardo que, por ora conseguimos carregar, mas que não obstante torna-se insuportável em nossas costas estreitas. O fardo do "ser", condição que se torna paulatinamente mais inconstante face aos dilemas enfrentados no decorrer do "existir", existência vivida por nós - sujeitos dessa história - mas que não está livre de intervenções e de instâncias outras.

O juízo de valor é desnecessário, não há pretensão a negar os crimes supostamente cometidos e nem condenar o que já está condenado. A reflexão é posta para que as coisas não sejam um fim em si mesmo, que os discursos não sejam pautados apenas em ações, mas em trajetórias de vida, para que aquelas, as que tendem a ser punidas, não sofram o dissabor de provar o gosto amargo do seu próprio ato. Morrer não significa estar debaixo de sete palmos, morrer é perder-se na vida e não se achar em lugar algum, em momento algum, em nenhuma circunstância que lhe valha o prazer de viver, prazer que já não se encontra nem mesmo naqueles que lhe trouxeram à vida.

segunda-feira, 15 de março de 2010

..:: Sombras ::..



Cada um a sua forma, deu forma a esta pintura no chão
que há de se chamar felicidade
O melhor o tempo guarda e a sombra esconde
Descobrira, pois, uma nova fonte de amor
Amor desgarrado de prudência e acrescido de movimento.

Cléo Pyanelly

..:: O que é o amor?! ::..



"Quando minha avó pegou artrite, ela não podia se debruçar para pintar as unhas dos dedos do pé. Meu avô, desde então, pinta as unhas para ela. Mesmo quando ele tem artrite" - Rebecca, 8 anos.

"Amor é quando você sai para comer e oferece suas batatinhas fritas, sem esperar que a outra pessoa te ofereça as batatinhas dela" - Chrissy, 6 anos.

"Amor é quando minha mãe faz café para o meu pai e toma um gole antes, para ter certeza que está do gosto dele" - Danny, 6 anos.

"Durante minha apresentação de piano, eu vi meu pai na platéia me acenando e sorrindo. Era a única pessoa fazendo isso e eu não sentia medo" - Cindy, 8 anos.

"Amor é quando seu cachorro lambe sua cara, mesmo depois que você deixa ele sozinho o dia inteiro" - Mary Ann, 4 anos.

Esta foi uma pesquisa feita por profissionais de educação e psicologia com um grupo de crianças de 4 a 8 anos.

domingo, 14 de março de 2010

..:: Charge I ::..

  



..:: A dor do pensar ::..


Pensar não é uma atividade fácil. Ser levado a pensar então, nem se fala! Tive nos últimos dias, uma aula que talvez figure entre as melhores aulas que já assisti ou ainda, umas das mais infelizes da minha história. Não sei se por coincidência, mas a disciplina ministrada era "História" do Brasil Escravista e no transcorrer do debate sobre o tráfico do trabalho humano nos dias que se seguem, me encontrei em uma situação de pressão particular: instigado a entender os fatos, a fazer conexões, estabelecer analogias, traçar comparativos , analisar um tempo que não me pertence, mas que se faz tão presente, reconhecer, perceber, indagar, responder, opinar, criar possibilidades... arrhhh... e PENSAR! Como explicar tal situação?! Será que aquele embate interno era só meu?! Não demorou muito pra eu observar que o incômodo não era tão particular, era generalizado, tocava em todas as partes daquela totalidade.


A História sempre me agradou, me encantou, fez pensar e como foi bela esta aula, recordo-me de tempos de outrora, aulas de uma professora que vou lembrar até não ter mais histórias pra contar, mas tinha algo estranho naquele dia, acho que meu cabelo não estava legal... as pessoas vivem dizendo que ele está pegando fogo. Pensando bem, não era o cabelo que entrava em erupção, era aquilo que ele esconde... A minha mente, assim como a mente da maioria dos estudantes, não estão acostumadas a receber visitas assim, que batem à nossa porta e entram ocupando um espaço enorme, nos fazendo PENSAR. Estamos habituados a aulas pouco propositivas, que não nos permitem participação e troca, mas a possibilidade de meros depósitos do conhecimento. Embora tenha sido pego de surpresa, gostei da surpresa, do incômodo, das incertezas, dos questionamentos, do PENSAR. Mas da próxima vez, vê se modera o passo... não é tão corriqueiro tanta pressão particular!

quinta-feira, 11 de março de 2010

..:: Manifesto ::..



Nós, alunos do curso de Geografia, da Universidade de Pernambuco – Campus Petrolina, carregamos em nossa trajetória o desejo de integrar uma instituição que se estabeleça enquanto espaço efetivo de formação intelectual e profissional. No entanto, o que é perceptível e vivenciado cotidianamente, e essa é uma prática que se dá desde o 1º semestre até a conclusão da graduação, é um curso que nega aos estudantes a possibilidade de alçar vôos maiores, contrariando o que pressupõe a Geografia, ciência que não se limita, não se esgota, não merece passar por nós como uma quimera que só pode ser contemplada subjetivamente. 

Atestamos nossa insatisfação com uma peleja que se arrasta e que não pode se perpetuar, ao menos não respaldada em nossa omissão. Poderíamos elencar uma série de problemas do nosso curso, mas ressaltamos a falta de professores ou ainda a ausência mesmo de efetivos que  não comparecem às aulas. Precisamos de uma gestão em nossa coordenação que seja sensível a essas questões, superando ações que ficam apenas no discurso e que reúna esforços para atender as nossas demandas e anseios, atitudes que não reconhecemos na gestão atual. Solicitamos, portanto, que exista uma participação direta dos discentes na escolha do coordenador do curso, tendo em vista que não faz sentido não existir a inserção do aluno no processo de escolha daquele que se propõe a ser o seu maior representante.

quarta-feira, 10 de março de 2010

..:: Primeiro andar ::..


Já vou... será? Eu quero ver, o mundo eu sei não é esse lá. Por onde andar? Eu começo por onde a estrada vai e não culpo a cidade, o pai. Vou lá andar. E o que eu vou ver? Eu sei lá.

Rodrigo Amarante


terça-feira, 9 de março de 2010

..:: Pena de morte ::..


Os jornais que meu pai levava para casa, ao retornar do trabalho, consistiam em minha leitura predileta, tão logo passei a dominar, na década de 1950, o código alfabético. Trazidos de trem, os diários do Rio só chegavam a Belo Horizonte no início da tarde. Como a TV ainda não entrara em nossa casa, após o jantar, a família reunia-se na sala de visitas para ler as notícias.

Influenciado pelo americanismo de pós-guerra, acompanhei horrorizado os passos do casal Rosenberg rumo à cadeira elétrica, acusado de passar aos russos segredos nucleares. Em setembro de 1949, a União Soviética explodira sua primeira bomba atômica, detonando nos EUA uma histeria coletiva, medo de que a próxima caísse sobre a nação que se considerava imune a um ataque externo.

Leitor de histórias em quadrinhos, aprendi que os EUA estavam protegidos pelos superpoderes do Capitão América, pela miraculosa aparição do Super-Homem, pela presteza vigilante da dupla Batman e Robin. Deus sempre salvava a América. Julius e Ethel Rosenberg foram apontados como os traidores que permitiram a Stalin possuir a mais poderosa das armas.

De tanto olhar as fotos em O Globo, gravaram-se em mim os rostos de Julius, 35 anos, e de Ethel, dois anos mais velha do que ele, na prisão de Sing Sing, em Nova York. Ele, com óculos de lentes brancas e um bigode de vassoura que lhe imprimiam aspecto de tabelião caprichoso. Ela, com os cabelos negros armados sobre o rosto oval, a boca pequena e o porte robusto. Nunca se provou que eram de fato espiões, mas o aquecimento da Guerra Fria exigia, para aplacar o pavor ocidental, um bode expiatório.


A pena de morte pareceu-me apropriada naquele caso. Tratava-se de impedir que a exceção virasse regra, pondo em risco a segurança do Mundo Livre. Passei dias sob o impacto da foto do casal amarrado à cadeira elétrica, suas cabeças cobertas por capacetes repletos de fios, malditos astronautas a caminho do inferno. Foram executados a 19 de junho de 1953.

O velho buldogue Edgar Hoover, chefe do FBI, felizmente estava a postos na soleira da porta de nossas casas, defendendo-nos da ameaça comunista. Mas não me conformei, pouco depois, com a execução de Caryl Chessman, também nos EUA. Li suas cartas. Se não me convenci de sua inocência, não me restava dúvida de que se tratava de um homem recuperado para a sociedade. Por que matar um criminoso que o cárcere transformara num intelectual?

Nunca mais aceitei a pena de morte. O ser humano é um milagre de Deus e uma obra-prima da natureza. Culpada é a sociedade que faz dele um monstro e, ao puni-lo, é incapaz de recuperá-lo para o convívio social. Por isso, fico assustado quando vejo lideranças políticas, inclusive de esquerda, clamarem por prisão perpétua ou pena de morte. Não é o peso da sentença que inibe a criminalidade. É a certeza da punição. A impunidade estimula a transgressão da lei. A pena, transformada em vingança, condena a sociedade que a aplica.

Frei Betto

domingo, 7 de março de 2010

..:: CINEMA NO VALE ::..

 


Ainda baqueado com a emocionante exibição do filme "O contador de histórias", venho a indagar sobre o que realmente temos acesso em nossos cinemas, será que me refiro aos inúmeros filmes que nada ou minimamente nos dizem alguma coisa e que apenas nos oferecem o tão requisitado entretenimento ou será que faço uma crítica aos nossos telespectadores da 7ª arte que assistem aos vídeos de forma superficial?! Acho que as duas proposições são pertinentes, mas vamos caminhar em nossas indagações... será que uma coisa não tem influência sobre a outra?! Ou melhor, o chamado cinema comercial, que deve constituir 99,9% das nossas salas, mantém ou não uma influência sobre a forma como as pessoas percebem as questões abordadas em um filme?! Super produções, ação, aventura, sexo, máfia, carros, magia, vampiros, um mix de terror e graça está disponível e pronto para ser consumido, homens e mulheres bonitos e famosos, os heróis que sempre desejamos e um ideal de mundo que nos é imposto mesmo nas grandes telas.

Feitos os meus comentários, faço agora uma indicação, relato a experiência de assistir um filme encantador, que propõe reflexão e que traz, mesmo nas mentes dos mais desavisados, o debate sobre nossos heróis, nossa perspectiva de mundo, nossas riquezas e virtudes, paixões, sentimentos e o que temos de melhor e pior. Estou me referindo ao que experimentei no CINEMA NO VALE, uma proposta de novas possibilidades de produções cinematográficas que não temos acesso. Parabenizo as pessoas envolvidas pela grande iniciativa e desejo que esse projeto seja um grande sucesso!

..:: Pra ManOela ::..



Essa pessoa chegou assim meio que sem propósitos e me encheu de possibilidades... foi possível passar em física e matemática, possível rir nos intervalos, falar de música, bandas e outras coisas que são de jogar fora, mas que fazem uma falta quando o fazemos, possível comprar uma pipoca e comer cinco pessoas sem reclamar, possível de sair da escola e continuar enchendo a paciência da pessoa pra não deixar de ser seu amigo. Mas acontece que sempre reclamei que ela, em seus limites e possibilidades, não me mostrava mais até onde seria possível crescer, mesmo assim, tentava a todo custo me fazer acreditar que aquilo era o seu melhor. Bom... eis que entre idas e vindas e algumas tentativas a pessoa consegue realmente me mostrar como em uma conta da matemática que tanto me ensinou que podia ser maior... e ela conseguiu, mas agora foi embora, calma, ela não morreu! Ela foi embora pra provar que é melhor, que sabe fazer o melhor, não pra satisfazer o meu ego, vai provar ao mundo que ela é assim GRANDE, mesmo não sendo proporcional ao seu tamanho físico... kkkkk...  Bons caminhos, minina feia!