"Não basta dizer que se é consciente de algo; é-se, também, consciente de algo como sendo algo"



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

..:: Divagações: Última parada 174 ::..



"Pra quem vê a luz, mas não ilumina suas mini-certezas, vive contando dinheiro e não muda quando a lua é cheia... Que tão no mundo e perderam a viagem... Senhor, piedade! Lhes dê grandeza e um pouco de coragem."

Hoje, após muito tem
po
de comentários e indicações, assisti à "Última parada 174", filme que narra, não de maneira fictícia, mas poética [concebido assim nas minhas lentes] a história de Sandro do Nascimento, menino de rua que resiste à chacina da Candelária na década de 1990, no Rio de Janeiro, e se torna alvo das câmeras novamente tempos depois pelo sequestro do ônibus 174, na referida cidade, que tem o seu desfecho marcado pela morte de uma refém e do próprio Sandro. Breve sinopse colocada, me vi em mais um momento de reflexão, momento de recorrer àquilo que há de mais humano em mim e conceber a explicação para determinados fatos na história de vida deste mesmo humano que nos atordoa. Nem sei se sou justo, mas peço piedade, por aqueles que não tem a sensibilidade de perceber, como eu, quanto o humano que somos não se perfaz sozinho, mas num emaranhado de relações e de experiências múltiplas. Piedade, porque assim não estarei cometendo o mesmo erro, não estarei a julgar as histórias alheias, mas tentarei compreendê-las. Piedade a mim, por conceder-lhes compaixão, mas é que o humano que aqui habita não me permite ser diferente.

Hoje, uma década depois, relembro essa terrível história. Muito angustiado pela morte de Geisa, a refém, mas não menos pela morte de Sandro, o "marginal".

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem!" - Bertold Brecht.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

..:: Menina minha, de saia rendada ::..


Pelo jeito dela
Pelo dengo, pela simpatia
Se eu caio na roda
Essa moça pode me segurar.

Ela lá no fundo
É meu mimo, é meu tino
A lembrança do carimbo
No meu peito anti-material.

Eu vou pedir pro tempo esperar
Eu quero mais:
Eu vou pedir pro tempo me esperar, se atrasar
Que me deixe contigo, me faça um favor
Que vá e esqueça de passar por nós.

Trechos de "Ah, se eu vou", de Lula Queiroga, "Sala de terê", de Monique Kessous e "Pitangueira", de Monique Kessous e Denny Kessous, respectivamente no post.

domingo, 2 de janeiro de 2011

..:: E o ano, enfim começa! ::..



E assim começou, cheio de recadinhos extensos e incovenientes, é, incovenientes, porque sempre são regados a cópias e frases prontas. Sinceramente, em nada isso me agrada, passa longe, chega a me deixar intensamente aborrecido. Vejo a falta de criação mesmo no discurso daqueles que se implicam em saudar o que vem a diante, dispostos à renovação. Melhor é começar o ano comendo imbu com a sobrinha, espírito de criança, gentil e cheio de encantamento, tão espontâneo, que dá vontade de provar esse gosto "azedo" a todo instante pelos próximos dias da nova era que se inicia. Isso mesmo, então que venha o "azedo", mas tão construtivo e inovador que me alegra, me fascina e me instiga a desejá-lo, porque nem só de carne vivem os homens, né, moço? Mas de movimento, de um curso cheio de percursos e de verde, do "azedo" do imbu, acompanhado do sorriso de uma menina apenas de vestido, porém de alma nada rosa.

domingo, 26 de dezembro de 2010

..:: Deus e o diabo em mim ::..



Sou a avenida cheia
De gente rápida e feia.

Sou um sol brilhante
De um dia incandescente
Sou luz, calor calante.

Sou toda gente em mim
Santo e demônio em mim
Céu e inferno em mim.

Trechos de "Santo e Demônio" - Fagner e Ricardo Torres.

Sou aquilo que em mim enxergas, mas não me peça pra ser só isso!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

..:: Mais do que o instante, quero seu fluxo ::..



O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. 

Mais que um instante, quero seu fluxo. Nova era, esta minha, e ela me anuncia para já. Tenho coragem? Por enquanto estou tendo. Venho do longe - de uma pesada ancestralidade. Eu, que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Mas quero também a inconsequência. Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom, mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo.

Estou à salvo? Enxugo a testa molhada. Ergo-me devagar, tento dar os primeiros passos de uma convalescença fraca. Estou conseguindo me equilibrar.


Não, isto tudo não acontece em fatos reais, mas sim no domínio de - de uma arte? Sim, de um artifício por meio do qual surge uma realidade delicadíssima que passa a existir em mim: a transfiguração me aconteceu.

Trecho e adaptação de "Água viva" - Clarice Lispector.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

..:: Passou, mas não passará ::..



E então passou, como as águas que transbordam em alegria e nem tanto em calmaria, mas agora tenho paz? Jamais. Agora é que a correnteza vem forte, para arrebatar aquilo que se chama de sonho e de perspectiva, carregando em si a possibilidade dos significados daquilo que somos. Que seja em meio a caminhos intranquilos, tudo bem, mas me deixa carregar esse peso, águas insanas, só me leve para bem perto daquilo que mais almejo: ser do outro e fazer para o outro. Assim, ao passar a próxima chuva, já não mais tenha pressa, nem correnteza, só certezas, ou não! 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

..:: Negar-se ::..



Engraçado, vivemos em uma constante trincheira entre a eficiência dos "humanos" e a razão dos "exatos", nessa discórdia em que se prega a nossa inutilidade perante a ciência. Diante disso, o que eu quero observar é que nós devemos ocupar, sim, os espaços, incomodar e inclusive desagradar, porque não pedimos para nascer humanos e não carregaremos para sempre o estigma de padecer em meio às formas e técnicas, sem nos fazer e nos perceber humanos, pois o homem só se faz homem quando age e se reconhece como tal. Se mantemos em nossas mentes e em nosso cotidiano essa repulsão ao outro, à obra do outro, à arte do outro, estamos negando a nossa própria condição de SER HUMANO.