"Não basta dizer que se é consciente de algo; é-se, também, consciente de algo como sendo algo"



terça-feira, 24 de maio de 2011

..:: Ai, a saudade ::..



Penso que a saudade conjuga-se com diversas cores e sentimentos. Pode estar tanto para o preto, quanto para o branco e, ainda, para as múltiplas cores. Ela pode ser transparente, sim, pela inconstância, instabilidade, por ser muito e mesmo nada. Contudo, acho que a saudade também adquire tons obscuros, quando está embebida de tristeza e dor, porque pode ocorrer por uma ausência que deveria ser sanada, mas que assim não procede, pela presença que falta às vezes representar maiores aflições quando está perto. Ao mesmo passo, a saudade vincula-se ao cítrico, solar, anil... A um forte sentimento de alegria e felicidade. Por que não?! Talvez indique a possibilidade de rever, de estar perto, de voltar a frequentar aquilo que nos faz bem. A saudade pode ser uma prévia da realização de algo que está por vir, por ser expectativa, incerteza, desejo. De fato, a saudade constrói o presente e lugares de memória, sempre na perspectiva de recuperar, ainda que não seja possível, elementos de um passado saudoso, mesmo que inspire incertezas e um estado de lugar não seguro.

Texto de Elisson César e Uriel Bezerra.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

..:: Sobre a mulher que deu tabaco na presença do marido ::..



Quem perde o tempo no mundo só com conversa fiada 
bota falta em todo mundo, não nota virtude em nada. 
Se acaso engolisse a língua, morreria envenenada.

Às vezes contam estória, que nem sequer faz sentido, 
que no dia de São Nunca talvez tenha acontecido. 
Da mulher que deu tabaco, na presença do marido.

Dona Juca era dotada de perfumado sovaco, 
e quem ferisse uma perna numa queda ou num buraco, 
ela curava a ferida com o seu próprio tabaco.

Quando ela via uma desventurada pessoa 
horrivelmente gripada, soltando espirros à toa 
dava o tabaco, e aquela enferma ficava boa.

Seu marido Mororó dizia: - Você me insulta, 
quanto mais dá seu tabaco, mais a multidão se avulta. 
Assim, ou para com isso, ou eu vou cobrar consulta.

Mas Dona Juca dizia: - Essa bobagem não faça. 
Quando eu tenho algumas pratas, você bebe de cachaça. 
Cobre pelo seu trabalho, meu tabaco eu dou de graça.

Pau da vida, Mororó respondeu: - Aqui, ninguém 
vai mais pedir seu tabaco, pois pra mim não pega bem. 
Quem pedir o seu tabaco, você diga que não tem.

Porém, como aquilo tinha que acontecer um dia, 
quanto mais passava o tempo, mais a multidão crescia, 
procurando a Dona Juca, em magistral romaria.

Pra mostrar que Dona Juca tinha mesmo grande prova, 
basta dizer que uma velha, já com os dois pés na cova 
foi visitar Dona Juca, pra pedir pra ficar nova.

Dizia a velha aos presentes: - Não pensem que sou maluca, 
sou velha, porém não tenho qualquer problema na cuca. 
Tenho fé no milagroso tabaco da Dona Juca.

E disse mais a velhinha: - Todo mundo tem fé nela, 
não há esse que não queira ao menos sonhar com ela, 
pedir pra sentir o cheiro que tem o tabaco dela.

Conselhos de medicina da nossa grande nação 
pediram que o governo procedesse intervenção. 
De Juca, o curandeirismo, a pronta proibição.

A população local lançou logo um manifesto 
e contra a proibição uma nota de protesto, 
achando que o conselheiro devia ser mais modesto.

A imprensa curiosa, rádio, TVs e jornais, 
volantes de reportagens e as emissoras locais, 
mandaram à casa de Juca os seus profissionais.

Muitas pessoas movidas por humanos sentimentos, 
na casa de Dona Juca armaram acampamentos, 
assistindo a cobertura de tais acontecimentos.

E os poetas distantes, da vigilância da Lapa, 
faziam suas propagandas enquanto bebiam garapa, 
exibindo seus folhetos com Dona Juca na capa.

Numa bengala escorado, um doente entrou na sala, 
quando cheirou o tabaco, readquiriu a fala. 
Pra provar que ficou bom, rebolou fora a bengala.

Nunca a fama de um vivente depressa se espalhou tanto 
nos quatro cantos do mundo. O seu nome em cada canto 
desfrutava do respeito, do mais milagroso santo.

Quando nem a medicina dava esperança sequer 
ao enfermo, ele inda tinha uma fezinha qualquer, 
no tabaco milagroso, daquela santa mulher. 

E a própria natureza como que para testar 
o poder que possuia o tabaco de curar, 
fez aparecer doenças muito estranhas no lugar.

Por exemplo, na cabeça de um sujeito, ainda moço 
apareceu certo dia uma espécie de caroço, 
um par de colossais chifres, um mais fino, outro mais grosso. 

O rapaz, secretamente, foi ao lar de Dona Juca 
e disse: - Um dia eu senti na testa uma dor maluca, 
depois nasceu esses troços no alto da minha cuca.

Dona Juca disse: - O meu tabaco pode curar, 
porém a sua mulher terá que colaborar, 
pois do jeito que ela faz, nem adianta tentar. 

Este negócio de chifre não é um costume novo. 
Eu esfrego meu tabaco, ela pede fumo ao povo. 
Eu sei que existe a chuva, porém eu mesmo não chovo.

O rapaz chegando em casa disse pra Conceição: 
- O milagroso tabaco me tira desta aflição. 
No entanto, é necessário sua colaboração. 

Conceição, disse assustada: - Colaborar? Como assim? 
Não dê mais o seu tabaco, não seja assim tão ruim... 
É você dando o tabaco e nascendo chifre em mim.

Aí Conceição cortou os males pelas raízes 
e o pobre rapaz dos chifres também superou as crises. 
Viveram oitenta anos, extremamente felizes. 

Dona Juca recebeu parabéns até do Doutor Zeca, 
que fizera experiência com sua própria cueca, 
e não conseguiu nascer cabelo em sua careca.

Passando a careca no tabaco prodigioso,
ficou cabeludo, e Zeca se tornou em fervoroso, 
romeiro de Santa Juca, do tabaco milagroso.

Cordel de Gonçalo Ferreira da Silva

domingo, 17 de abril de 2011

..:: Sobre dar mais aos que vem de cá ::..



Por que é tão tendencioso servir-se aos de lá? Não seria coerente se dar com mais afinco aos que são de cá? Até suponho respostas, mas confesso que me falta impessoalidade para discorrer sobre elas!


[...]

E eis que um diálogo nos conduz ao exercício da reflexão...


Maricota: - "Sobre dar aos que vem de cá". Elementar e ao mesmo tempo muito forte.
Januário: - É um dilema que me atormenta. Essa disponibilidade sempre tão "disponível" aos outros, àqueles que são da rua, e uma certa rudeza, desinteresse, pelos de casa.
Maricota: - Aos da rua a gente escolhe o que doa, aos de casa a gente quase nunca pode escolher. É nessa tentativa (ou na falta dela) que somos rudes. A gente foge a essas responsabilidades.
Januário: - A gente não só escolhe, mas escolhe sempre o melhor, sempre seleciona, parece querer agradar. É como se fosse uma busca constante pela conquista desse outro de lá. E como que um comodismo com os de cá, por estes já terem sido conquistados pelo sangue e por todas as relações já estabelecidas.
Maricota: - Esse também é um fator, fortíssimo!


[...]

Então, no fim do diálogo:


Maricota: - Aquela foto sua está linda!
Januário: - São seus olhos, meu bem!

sábado, 19 de março de 2011

..:: Eu só peço a Deus ::..



Solo le pido a Dios:

Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacia y sola sin haber hecho lo suficiente.

Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Despues que una garra me araño esta suerte.

Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede mas que unos cuantos,
Que esos cuantos no lo olviden facilmente.

Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado esta el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.

Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

"Solo le pido a Dios", de Leon Gieco e Raul Ellwanger.

sábado, 12 de março de 2011

..:: Somos árvore, mas também papel ::..



Esta vez somos de papel
somos la corteza de un árbol
que nada tiene que ver
con el sudar del viento

Somos servilleta
y el recibo de luz

Esta vez somos de papel, somos
las infracciones y las hojas de la biblia
esta vez somos honestos

Somos servilleta
y el recibo de luz

Esta vez somos de papel
somos las infracciones
esta vez somos honestos para siempre.

"Esta vez", de Julieta Venegas e Gustavo Herrera.

"Somos de papel
Somos a casca de uma árvore
Que nada tem que ver
Com o suar do vento

Somos guardanapo
E o recibo de luz"

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

..:: Pelo direito à existência plena ::..



Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar do trigo o milagre do pão e se fartar de pão.

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel, se lambuzar de mel.

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação de fecundar o chão.

"O cio da terra", de Milton Nascimento e Chico Buarque.

Tô indo, mas só vou porque acredito, com todas as minhas forças, na possibilidade de se fazer da terra o que já é vida!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

..:: Hoje, quero só notícias boas ::..



Hoje eu escolhi passar o dia cantando
De hoje em diante
Eu juro felicidade a mim
Na saúde, na saúde, juventude, na velhice
Vou pelos caminhos brandos
A minha proposta é boa, eu sei
De hoje em diante tudo se descomplicará
Com um nariz de palhaço
Rirei de tudo que me fazia chorar
Cercado de bons amigos, me protegerei
Numa mão, bombons e sonhos
Na outra, abraços e parabéns!

Trechos de "Meu aniversário", de Vanessa da Mata

Nem gosto, mas que sejam muitos!