"Não basta dizer que se é consciente de algo; é-se, também, consciente de algo como sendo algo"



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

..:: Guardar ::..



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em confre, perde-se a coisa de vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la
iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, é fazer vigília por ela,
velar por ela, estar acordado por ela.


[...]


Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara um poema:
Para guardá-lo.

De Antonio Cícero

terça-feira, 16 de novembro de 2010

..:: Revisitando a minha condição ::..



Quando contemplo a pequena duração da minha vida absorvida na eternidade precedente e seguinte, o pequeno espaço que preencho e mesmo que vejo, abismado na infinita imensidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, apavoro-me e espanto-me por me ver aqui e não lá, pois não existe razão por que aqui e não lá, por que agora e não então. Quem me colocou aqui? Pela ordem e pela condução de quem este lugar e este tempo foi destinado a mim?

Pascal

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

..:: Saudade II ::..



Hoje não senti, mas passei a contemplar o teu cheiro por outras vias, já não mais expresso em dor e angústia. Sim, devo confessar que não foi fácil, não exercitei a arte mais profunda de reviver meus temores de maneira sutil, isso seria demais pra mim, encontrar sutileza em tudo aquilo que deve ser lapidado, que é bruto, ríspido, e resiste em mim! É uma angústia que se renova, mas angustiar-se nem sempre é padecer.

Perfeita sintonia senti, melhor ainda é perceber que somos cuidados, que temos cuidados, que zelam por nós! Saber que existem pessoas que nos arrancam o melhor (e o pior) que temos e tomam pra si não somente a responsabilidade de preservar o que há de belo e desprezar o que se tem de amargo, mas (re) significar o belo e o amargo em mim, para que o belo não me acomodes e o amargo represente o gosto do outro que eu também quero.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

..:: Sobre duas rodas que flutuam ::..



O que nos conduz é a vontade de estarmos juntos, e o caminho permanece apenas abaixo de nós, mas se é para chegar, mais do que sem emissão de gases tóxicos, que seja despejando leveza por aí, que seja olhando as pessoas trancadas em seus carros parados sobre a ponte, que há muita contemplação possível dependendo apenas de um olhar para o lado.

Assim atravessamos os dois estados, e tomara que da mesma maneira consigamos atravessar o tempo, sem a ilusão de que a disposição para pedalar seja a mesma, mas com a persistência em compartilhar, boa música, uma gargalhada qualquer, sensibilidade, e a parte corajosa de nós.

Por Sarah Fonseca

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

..:: Vida/Tempo ::..



Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma.
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
  Avida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
  A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
  A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
  A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo
na verdade faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: 

tempo, se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando.

Viviane Mosé


terça-feira, 28 de setembro de 2010

..:: Só porque ser feliz é pra todos! ::..

 
Parecia um bloco de carnaval, tanto!
Mas que assim o seja, como um bloco.
Já dizia Gonzaguinha: da unidade vai nascer a novidade!
Um novo que é múltiplo, que respeita o sabor do outro.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

..:: Gente humilde ::..

 

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar


São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar.

De Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Garoto