"Não basta dizer que se é consciente de algo; é-se, também, consciente de algo como sendo algo"



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

..:: Piedade ::..



O frio às vezes quer ser quente, quer acalentar, mas a natureza não deixa porque o frio não nasceu pra isso. Não compõe a sua lista de habilidades a proeza de aquecer; ele é gélido, frígido, por hora amargo, no entanto, vive tentando acomodar a sombra daqueles que o sustentam.

Tantos já se foram, quantos instantes já se perderam, mas eu peço piedade, piedade às sombras e aos sustentáculos. Suplico piedade ao mesmo passo que grito: permitam-me exercer a minha frieza, não por egoísmo, mas por vocação.

..:: Desilusões do século passado - Quino ::..



domingo, 22 de agosto de 2010

..:: Inebriai-vos ::..



É preciso estar sempre ébrio. Tudo se resume a isso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que abate vossos ombros e vos verga em direção à terra, é preciso inebriar-vos sem trégua.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas inebriai-vos. 

E se às vezes, sobre os caminhos do palácio, sobre a erva verde de um canal, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a ebriedade já diminuída ou extinta, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de se inebriar! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, inebriai-vos; inebriai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

Texto de Charles Baudelaire. Tradução encontrada no blog "Armadura de vento": http://armaduradevento.blogspot.com/.

domingo, 8 de agosto de 2010

..:: E eis que tudo começa ::..



Renascido e inseguro
Cuspido em novo terreno
Incerto, sem convicção
Essa fraca e instável hora

Primeiro dia,
Começa outra vez
Primeiro passo, 
Não estou nem fazendo mais sentido por enquanto

Eu finjo até eu pseudo-conseguir
Começar do zero outra vez, mas agora "eu" como "eu"
E não como "nós"
Hesitante e agitado
Tímido, sem uma mão
Disfarço-me de bravo com intenções de aço

Pequeno e distante
Olhos molhados
Abertos e cansados
Se Deus está fazendo apostas
Eu rezo que ele queira perder

Traduzido e adaptado de "Not as we" - Alanis Morissette


domingo, 1 de agosto de 2010

..:: Metade ::..




Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro


sexta-feira, 30 de julho de 2010

..:: Sim, assim ::..



Como agradam as coisas simples que me ocorrem!
Como desejar que essa verdade seja contemplada por outros olhos que não os meus?
Coisa simples é coisa que não assusta, não se percebe, tampouco se concebe e nem ao menos ameniza.
Não carrega em si o peso que tem as dores que o vento não leva e que sempre batem à porta.

Como agradam as coisas simples que me ocorrem!
Como apreciar sem exigir que seja grande?
Coisa simples não fragmenta as pedras amontoadas naquele canto a ser esquecido.
O que é simples insiste em me agradar, satisfazer.
Chega assim como o vento, incapaz de arranhar, demarca e ocupa!

Que contradição... mas o que fazer pra que essa verdade encontre outros olhos que não os meus?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

..:: Cansaço de estar cansado ::..



Alguns dias se passaram e aqui estamos. Demora para escrever pelo exercício de produzir; memória que quase parou, mas de pensar não quis parar; reflexões perdidas e encontradas, despedidas do que foi achado e o reencontro com a dúvida que nunca deixou de duvidar: o conflito daqui é sobre o que serei ou sobre o que será?

Será importante este conflito na mesma medida em que são essenciais os seus fins últimos? Ora! Como amadurecer, sem necessariamente crescer?